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sábado, 24 de novembro de 2012

Poema da semana


Maroiço
Mar…oiço
Eu oiço o mar
e do maroiço, espreito o mundo
e sinto com a imaginação
pedras, pedrinhas e pedregulhos
rolados, virados e levantados
pela vida sofrida
de tanta gente
E se Ulisses passou por aqui
ainda não havia maroiço
mas já soprava uma epopeia de
pedra
a haver
nas veias do homem do Pico
Moroiço é obscuro e pedregoso
Maroiço é monumento e claridade
e dele brotam pinheiros e outras
ideias
e uma tremenda vontade
em não ser derrubado.
Manuel Tomaz (2012), Ponto Cardeal, n.º 5, p. 10

   in  http://www.edu.azores.gov.pt/projectos/planoregionalleitura/Paginas/PRL_poemadasemana.aspx

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Leandro, o Rei da Helíria


 Sugestão de leitura...

Boas leituras! :))





 


Poema da semana


 

​​​


(forma 2)

a mel e medo o meu passo avança devagar à

porta entreaberta da noite. mergulhado em

silêncio, alguém respira. e eu a mel e medo

encostada à porta possível da noite. porta

entreaberta ou porta de notícias e recados e

corpos por escrever.

porta de mel e medo e de passos devagar.

Judite Jorge in Setembro e outras estações

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Poema da semana





841
Agora, diz-me que não consegues ver o mundo daqui.
A cegueira dos vizinhos, os gritos na cozinha, todas
as pequenas luzes que se acendem perto
onde dois homens se reúnem em seu nome;
os placards, os outdoors, os néons,
todas as palavras que não souberam inventar;
a ponte, a estrada, o bilhete que diz
que ninguém dormirá hoje em casa
e o pedido de desculpas do farmacêutico à mulher
pelo fármaco para as dores
de ter de ser.
O planeta que lamentamos não chegar a ser nosso está
certamente
a lamentar-se de outra coisa qualquer.
Porque é que te interrogas? Porque é que ainda
te debruças sobre as lutas que não foste lutar? Há
duas coisas esquecidas na mesa-de-cabeceira
do teu quarto da infância:
a infância e
o dossier com o projecto para aquilo que sonhavas crescer.
Que importa, agora, a parede e o papel de parede
com que forraste a vontade de ser outra coisa?
Os arqueólogos conduzirão as suas investigações e
os astronautas dir-te-ão como pareces do espaço.
No papel de carta da carta que nunca escrevi
ninguém poderá ler o que quer que seja.
E mesmo assim haverá alguém
todos os dias
à espera dessa carta
à espera de uma carta concreta
dizendo coisas concretas
destinadas, especialmente,
a ela.
De que vale, então, escrever?
Que coisas mudariam se fosses tu junto a uma daquelas luzes
e não tu aqui, agora, a olhá-las?
Alguém se debruça à janela e logo
irrompe adentro e
fecha a vidraça
e ecoa um breve toque de metal pela noite.
Se espera um carta,
ao menos envie o endereço.
O meu é fácil:
            Heartbreak Hotel
            ao teu lado
            quarto, 841,
            donde se avista o mundo possível.


Alexandre Borges, in Heartbreak Hotel, 2005