Pesquisar neste blogue

sábado, 13 de abril de 2013

DIA DO BEIJO COMEMORA-SE HOJE



 
... Porque o beijo é poesia...

O Beijo

Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.

Donde teria vindo! (Não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?

É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.

E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...


Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'



 Horas Rubras 

Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos rubros e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...

Oiço olaias em flor às gargalhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p'las estradas...

Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve e branca e mist'riosa...
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras! 

 
Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"



 Há Palavras que Nos Beijam 

 Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'



(Em construção) 

Deixo-vos um pequeno desafio: escolham, também, um poema e enviem! Podem aproveitar o espaço "comentários", aqui no blogue (para quem não tem o meu mail). Será publicado junto a estes! Se tiverem algum original vosso, melhor ainda! Pode ser anónimo ou não, podem, ainda, aproveitar para o dedicar a alguém se preferirem! Fico a aguardar a vossa participação! ;)


segunda-feira, 8 de abril de 2013

PRL - o poema da semana
segunda-feira, 8 de Abril de 2013

​​​


São Jorge, Pianos de Mar
Ao Eduardo Bettencourt Pinto
Do Corvo a Santa Maria…
Fico na ilha de S. Jorge: com laços de luz
nos ouvidos à espera que o moinho
do morro das Velas venha um dia
a moer a memória da distância
e o morro de Lemos seja da altura
da lua!
Nas ruínas da casa de Francisco de
Lacerda há-de haver um piano
com cauda de mar
que vá desde a Fragueira à Fajã
de S. João
e passe o seu silêncio através do canal
nas asas dos grilos!...
Fico em S. Jorge para ouvir
o mar dar a volta ao silêncio
e cobrir de azul toda a água da noite
e ver o funcho a crescer pelos caminhos!
Espero no cais das Velas o regresso
dos pescadores e canto a raiz
das conteiras ao sol da manhã.
Fico em S. Jorge
como um homem antigo cheio
de hábitos modernos. Como um
peixe de sangue quente, coração
e mãos ardentes, capaz
da colheita do milho
e da carícia humana dos poemas!
Fico em São Jorge:
- Viajar sem Viajar!
Carlos Faria (1929-2010) in S. Jorge – Ciclo de Esmeralda

sexta-feira, 5 de abril de 2013


PRL - o poema da semana
segunda-feira, 1 de abril de 2013

​​​


Domingo de manhã
Em Londres o tempo ainda vinha de mãos abertas,
era sempre dócil quando se inclinava no papel
pela primeira vez. Mas eu já tinha o nevoeiro nos dedos
e podia adivinhar as suas razões: os parques acolhiam
toda a espécie de sinais por entre as árvores,
as ruas que me couberam estavam escritas
nas más estrelas, faziam um barulho subterrâneo,
como máquinas. Era um deserto aquilo que começava
nas esquinas do Sonho? Na minha cabeça,
onde o pensamento iludia a língua.
Empurrado contra um muro sem palavras, eu riscava
o espaço todo à minha volta, riscava-o até à fronteira
nas grutas de sábado à noite. Temia que a minha
verdadeira vida não chegasse a encontrar-me,
enquanto os homens do lixo varriam as avenidas.
Mas tu tinha feito outros planos para mim,
tu com o teu cabelo cheio de búzios. Ao falar, abrias a porta
às primeiras instâncias da manhã. De pé, de olhos
fechados, como um rio que viesse por baixo das pedras
e trouxesse a rua de regresso ao dia.
Rui Pires Cabral in Resumo: a poesia de 2011

segunda-feira, 1 de abril de 2013

FINALMENTE!!!!
FEZ-SE JUSTIÇA EM NOME DA LÍNGUA PORTUGUESA!!!!!!
PODEMOS DIZER ADEUS AO (SES)ACORDO ORTOGRÁFICO!!!!
YEEEESSSSS!!!!

NA VERDADE, AO foi feito por uma ou duas pessoas que SEMPRE se furtaram e furtam à crítica. Quase todos os falantes qualificados, escritores, professores, académicos ligados profissionalmente à linguística e outros académicos (sem falar no cidadão comum), se pronunciaram contra o AO. O que eles não tinham visto era os seus argumentos serem analisados, discutidos e respondidos. MAS ACABOU POR ACONTECER!!!!! OBRIGADO A TODOS OS QUE SE EMPENHARAM NESTA LUTA MAIS DO QUE NECESSÁRIA!

"A minha pátria é a língua portuguesa», escreveu, profeticamente, Fernando Pessoa."

SE TAMBÉM ERA CONTRA, PARTILHE!!!

"A minha pátria é a língua portuguesa», escreveu, profeticamente, Fernando Pessoa. O seu génio expressou-se também, inúmeras vezes, em língua inglesa – mas aquele que viria a tornar-se o mais internacional dos escritores portugueses sabia que cada língua tem a sua cor, a sua luz e a sua música própria, e que a arte da escrita consiste em levar para lá dos limites convencionais os dons expressivos de cada língua. A sua primeira originalidade foi essa: a de se entregar ilimitadamente à sua língua, sem complexos de mando nem de escravo. Por isso escreveu sobre o conhecido e o desconhecido, o alto e o baixo, a estética e o comércio, a política e a astrologia. Criou uma constelação de heterónimos e semi-heterónimos – incluindo uma extraordinária Maria José – que lhe permitiram explorar, visceralmente, as mais diversas possibilidades do ser. E foi, evidentemente, um poeta inultrapassável – o tempo paralisa-se diante dos seus textos, sempre inscritos numa verdade futura. Semeador de papéis com um único livro publicado em vida («Mensagem»), sonhador de impossíveis que jamais se deixou esmagar pela monótona incompreensão do seu tempo, Fernando Pessoa deixou uma obra múltipla e incisiva, que continua a surpreender-nos, a seduzir-nos e, acima de tudo, a desafiar-nos a quebrar as fronteiras do corpo e da alma, da vida e do sonho, da reflexão e dos sentimentos. Uma obra absolutamente universal."


Inês Pedrosa


(EM CONSTRUÇÃO)